Ideia é aproveitar lei que determina a compra de produção agrícola de comunidades extrativistas locais
CALHA NORTE (PARÁ) - Na região de peixes fartos e onde é possível
plantar mandioca, banana, abacaxi - fora a castanha, que é abundante, e
alimentos nutritivos da flora local -, ao chegar numa vendinha na
comunidade de Cachoeira Porteira, no Rio Trombetas, para comprar o nosso
jantar, o que encontramos são latas. De feijoada, de sardinha, de
legumes. Nada fresco. Sem combustível suficiente para manter
refrigeradores ligados o tempo todo, a solução são os enlatados, que
abastecem até mesmo a merenda escolar.
Pensando em melhorar essa situação e
ao mesmo tempo oferecer uma alternativa de geração de renda em bases
mais sustentáveis, o Imaflora, uma das entidades que compõe o Consórcio
Calha Norte (formado, entre outros, também por Imazon Conservação
Internacional e Museu Paraense Emílio Goeldi), iniciou um trabalho para
melhorar a merenda que é enviada para as comunidades quilombolas de
Oriximiná aproveitando os produtos cultivados por elas mesmas. A cidade,
que concentra a maior quantidade de remanescentes quilombolas do Estado
do Pará, soma 34 comunidades.
"Os alimentos para chegar em Cachoeira Porteira, por exemplo, vão em
barcos que levam até 14 horas para fazer o trajeto desde Oriximiná e não
têm refrigeração. Então o jeito é ir mesmo em latas, mas podemos pensar
em algumas alternativas", comenta Leo Ferreira, do Imaflora.
A ideia foi aproveitar a lei que criou o Programa Nacional de
Alimentação Escolar (PNAE). Ela estabelece que na compra dos produtos da
merenda, ao menos 30% seja adquirido pelos municípios da produção
agrícola de comunidades extrativistas locais.
Mas num município tão grande como Oriximiná (107,6 mil km², o segundo
maior do País), em que as comunidades ficam distantes e isoladas, o
produtor encontra dificuldade até em acessar a chamada pública.
O primeiro passo foi, então, fornecer assistência técnica e apoiar as
comunidades a ofertarem seus produtos. E ao mesmo tempo articular com a
Secretaria de Educação do município o processo para abrir as chamadas
públicas para esses produtos.
"Chegou a se temer que os quilombolas não teriam produção suficiente.
Mas um levantamento mostrou que algumas até perdem cará, abóbora,
melancia, banana, porque não têm mercado", conta Ferreira. Cada
comunidade tem uma característica. Algumas são mais dependentes da
castanha do pará, como é o caso de Cachoeira Porteira, e outras têm
perfil mais agrícola. "Checamos com as lideranças quem tinha algo para
oferecer", diz.
Também foram investigados os hábitos alimentar dessas comunidades,
seus pratos típicos, suas receitas. "Vimos que dava para pensar até em
chá com produtos da floresta, substituir biscoitos por biju, por
exemplo."
A primeira chamada pública deve acontecer até março para a 1ª venda -
de produtos in natura, principalmente frutas e legumes. A ideia mais
para frente é incluir produtos como peixes e polpa de açaí, mas por
causa das condições de transporte, eles terão de passar por algum
processo de beneficiamento.
Também se discute a inclusão da castanha. Enviar com casca, como hoje
os quilombolas costumam vender, daria muito trabalho para as
merendeiras. Antes talvez seja necessário alcançar uma outra etapa do
desenvolvimento das comunidades, que é a instalação de usinas de
beneficiamento da castanha nessas próprias regiões, avanço que também
está sendo articulado pelo Imaflora.
A farinha de mandioca é outro ingrediente na lista. Hoje ela já entra
na merenda das escolas na área urbana. Pode entrar na das comunidades
já neste semestre. "A venda deve melhorar a renda das comunidades. Só
vamos conseguir garantir a conservação da Calha Norte, se der a essas
pessoas boas condições de vida", defende.
Fonte: Giovana Girardi - O Estado de S.Paulo