A pesquisa verifica desde 2006 o
desenvolvimento de 240 mudas de árvores, de 13 espécies, num local com
quase nenhuma condição de sobrevivência.

Bosque mostra outra forma de olhar a Floresta Santarém
- "A experiência científica não é como uma receita de bolo", alerta o
pesquisador Breno Rayol ao apontar a rigorosidade que um estudo deve ter
para alcançar resultados coerentes. “Olha só essa daqui, é uma delas”,
Rayol agacha-se, apronta o paquímetro, tira a medida do diâmetro do
tronco, verifica a placa de identificação – uma espécie de carteira de
identidade - do vegetal com um pouco menos de meio metro de altura que é
uma das cobaias. Quem não entende do assunto poderia olhar aquele ser
como uma simples planta, algo comum; mas para o cientista, o olhar é de
criador e sua criatura.
A pesquisa verifica desde 2006 o
desenvolvimento de 240 mudas de árvores, de 13 espécies, num local com
quase nenhuma condição de sobrevivência. Mas algumas espécies mostraram
resistência e capacidade de adaptação conforme revelou em pesquisas já
publicadas.
Laboratório de árvoresNum final de
tarde amazônico, período de chuva, clima ameno, fomos até a área pouco
maior que um campo de futebol (1,4 hectare). No local estão elas,
cercadas por um muro de tijolos, a formação agora é de capoeira, tipo de
vegetação que surge após a retirada da floresta primária.
“Juca,
o senhor pode ver a chave do bosque?”, solicita Rayol ao guardião da
floresta. Seu Juca, homem de traços faciais e o sotaque caboclo não é
cientista, mas um hábil identificador de espécies florestais. Ele também
toma conta das experiências produzidas no laboratório de árvores.
Logo
na entrada o visitante se depara com uma homenagem entre folhas que
revela o escrito: “Bosque Mekdece”. Assim foi chamado o lugar que agrupa
a formação arbórea cosmopolita.
A
engenheira florestal, Fátima Mekdece, foi quem iniciou as primeiras
pesquisas sobre as sementes em Santarém. Dentre seus estudos na região, é
destaque a aplicação da “quebra de dormência”. “Toda semente fica com,
digamos... preguiça de germinar. Para que essa semente possa apresentar
brotos de forma mais rápida, são feitos testes como colocar a semente em
água quente. São formas de acelerar a germinação”, explicou Rayol.
Mekdece atualmente vive em Belém, capital do Estado do Pará.
O
laboratório ao ar livre faz parte da Universidade Federal do Oeste do
Pará (Ufopa) que apesar dos 2 anos de fundação, já teve pesquisas
publicadas. Isso porque foi construída a partir dos campus Ufra-Santarém
e UFPA-Tapajós, instituições que atuavam na região.
De acordo
com o diretor do Instituto de Biodiversidade e Florestas da Ufopa (IBEF)
João Ricardo, dentre outros objetivos, a universidade quer auxiliar no
melhoramento da produção de bens e serviço do homem amazônico. Volta-se à
conservação das florestas. "Na região, temos dois importantes
potenciais: recursos florestais e minerais. Se conseguirmos ter um
equilíbrio entre as duas vias de desenvolvimento de produção, com
certeza teremos uma região com bom nível de desenvolvimento
socioeconômico", destacou o professor João.
Visita à Hymenaea Courbaril Lee & LangenhA
Hymenaea courbaril trata-se do nome científico dado à espécie “jatobá”
que faz parte da pesquisa de resultados positivos para a produção desse
recurso natural na região. O estudo foi elaborado em dois anos, quando
os especialistas avaliaram o ritmo de crescimento desse tipo de árvore,
um enriquecimento de capoeira.
Segundo os resultados, em 2009
foram plantadas na área 24 mudas de jatobá, sendo distribuídas em grupos
de 3 exemplares, numa distancia de 20 metros cada trio. Ao final de 18
meses de observação, constatou-se que houve 100% de sobrevivência dos
jatobás, o que é muito satisfatório, conforme afirma o pesquisador Breno
Rayol.
Hoje, contando com uma plantação de jovens jatobás, outra
observação que chama a atenção, diz respeito ao maior crescimento desse
tipo de árvore no período de chuva da região amazônica. “Provavelmente
um dos fatores é a pluviosidade. Observamos que em épocas de pouca chuva
o crescimento é muito menor e isso é um indicador determinante. A época
sem chuva é tão forte que a mortalidade é elevada. Agora, começamos a
pensar em desenvolver técnicas. Isso é uma demanda para que estas
espécies consigam sobreviver durante esse período mais drástico”.
Trilha para ver a experiênciaSeguindo
a trilha aberta no bosque, ao estar dentro da floresta urbana, quase
não se percebe o barulho dos carros que passam nas ruas que rodeiam o
espaço. O gorjear dos pássaros acaba tomando conta do lugar. O tumulto
torna-se indiferente. A música de passeio também é composta pelos
estalidos dos galhos que decompõe para dar energia aos vegetais e demais
seres daquele ecossistema. Em menos de 1 minuto de caminhada, chegamos
ao local onde agora as árvores de laboratório crescem.
Segundo
Rayoul, o jatobá não é uma espécie que está em risco de extinção; porém,
sofre intensa pressão madeireira. Para ele, o quadro pode ser revertido
com o reflorestamento desse recurso natural pelas próprias comunidades
que poderão, mais tarde, utilizar as espécies de forma ordenada. "Se a
gente conseguir propagar o plantio dessas espécies na agricultura
familiar, em ambiente altamente perturbado, podemos gerar renda."
O
cientista também aponta que além da geração de emprego e renda, o valor
de uma árvore vai bem mais a diante. “Sabemos hoje que uma árvore
contribui em vários aspectos, como a possibilidade de descanso debaixo
de sua sombra, o efeito dos cantos dos pássaros e a diminuição da alta
temperatura. Tudo isso é importante para a qualidade ambiental.”
Assim,
por tudo que se tem plantado no Bosque Mekdece, valores científicos,
sociais, cultuais, ambientais, econômicos, e dentre muitos outros, não
há dúvidas que plantar uma árvore, construir florestas urbanas, só deve
contribuir para a qualidade de vida.
*Por Júlio César Guimarães -
Acadêmico da Especialização em Jornalismo Científico da Universidade
Federal do Oeste do Pará - Ufopa. Reportagem elaborada na disciplina
“Laboratório I – Pesquisa e Produção: as fontes científicas”, ministrada
pela Profª. Dra. Socorro Veloso.